Orvalho: as menores lentes da manhã
Durante meia hora depois do nascer do sol a relva enche-se de mundos invertidos, e depois o sol leva-os de volta.
O orvalho é menos meteorologia do que temperatura a chegar atrasada. O solo entrega o seu calor durante a noite inteira, a superfície desce abaixo do ponto de orvalho e o ar deixa cair aquilo que já não consegue sustentar. Nada disso se vê até a primeira luz entrar de lado e transformar o prado numa coisa granulada. Quem fotografa orvalho madruga por necessidade e não por virtude: quando o sol passa a sebe, o motivo já evaporou.
De perto, a tensão superficial faz o trabalho que um projetista de óptica cobraria. Cada gota mantém a forma, recolhe a encosta que tem atrás e devolve-a invertida, com uma cor ligeiramente mais fria. A seda da aranha enfia-as em fileiras, e um caule que de pé parecia vazio traz, quando nos agachamos, quarenta cópias minúsculas da mesma colina. Nessa ampliação a profundidade de campo encolhe para uns milímetros, por isso a decisão é sempre qual das gotas fica nítida enquanto as outras se desfazem em verde.
Como papel de parede comporta-se surpreendentemente bem. O fundo é escuro e silencioso, os pontos claros são pequenos e espalhados, e os ícones assentam por cima sem disputa. O que fica é perceber que a imagem trata afinal de um limiar: alguns graus para o outro lado e não haveria nada sobre a relva.